31 de out de 2016

Tratamento parte I







Primeiras consultas são estranhamente pessoais e impessoais. Falta tempo para conhecer a pessoa, mas é preciso resumir o que se passa em poucos minutos para que se abram diagnósticos (rápidos e precipitados quase sempre), para que se possa designar uma medicação adequada, para estancar o problema. A urgência da nossa medicina é uma provocação ao bem estar. A impessoalidade de um médico que não pode se envolver demais em seu problema, não quer fazer isso, ao mesmo tempo tenta demonstrar que se importa com o que está sentindo porque escolheu essa profissão e só o faria se fosse humano suficiente para isso.

A posição do médico que ouve e mostra compreensão às vezes passa a sensação de um certo fastio para com seus problemas, do tipo "ok, é a vida, vamos tentar consertar você, tenha paciência com o processo".

Eu sou ansiosa, depressiva, chata e exigente. Carente de atenção muito mais que de remédios. Perfeccionista e passivo-agressiva a ponto de não gostar do que estou ouvindo de um profissional e não admitir isso em palavras, por não poder expressar e medo de ofender. Desmorono aos poucos por não conseguir contar tudo de uma vez, só de me ouvir contando o resumo vem na garganta o misto de frustração e raiva por não conseguir lidar com meus problemas e ao mesmo tempo culpa, por me colocar alí, e também uma resignação um pouco forçada por ter que admitir que não dá pra passar pelo que estou passando sem umas cicatrizes. Perdoar-se passa pela mente, mas é tão de longe que as lágrimas turvam qualquer possibilidade de entrega.

O profissional te dá as boas/más notícias de um longo tratamento que se avista. Ele espera que você não questione, eis uma relação de autoridade implementada pela divisão do mundo em profissões segmentadas. O que o separa de mim é o jaleco e seus anos de estudos técnicos. Eu não me compreendo e ele é designado para entender meu sofrimento e cessa-lo. Se surge questionamento vem a etiqueta de ansiosa, se não, apática. Eu quero tudo e quero agora, quero entender e viver e vivenciar como cientista. Essa sempre fui eu, não sei ser outra, mesmo estando em uma fase particularmente complicada da depressão que é o início do tratamento, nenhuma apatia me faria perguntar menos e aceitar mais. Eu preciso racionalizar as coisas mesmo que estejam acontecendo comigo, mesmo quando estou no olho do furacão. Então o médico me olha como se fosse um desafio à sua autoridade. Nesse momento eu queria tanto não saber e não entender, não ter convivido com medicamentos e nem wikipédia. Tabula rasa pra problemas mentais é o parque de diversão para o psiquiatra. Eu entendo que eles devem estar de paciência estourada com tanta gente se autodiagnosticando, automedicando e se apoiando nas próprias doenças mentais. Mas acredite, eu não queria estar alí. Eu não queria ter que ouvi-lo, mas eu ouço, eu respeito e não deixo de questionar porque não sou uma porta. Acho tão difícil de baixar a guarda com os médicos quanto deve ser para eles baixar a guarda para com os pacientes.

Não sou a paciente sabe-tudo, sou a sabe-tudo na vida toda, difícil isso para as primeiras consulta.

Tratamento parte II
Tratamento parte III