12 de ago de 2015

Comer, comprar e procrastinar são os meus verbos



As pequenas compulsões de uma pessoa perfeccionista são as culpas que arruínam os dias.

Comer, comprar e procrastinar são os meus verbos.

Comer compulsivamente é o comer emocional. Aquele em que não se tem uma fome real, não há uma necessidade física de nutrientes ou de satisfação, mas um impulso de tapar um buraco dentro de si com comida. Existem compulsões alimentares específicas que se realizam em momentos de ansiedade. A minha é de compensação, é um escape à privação ao qual me submeto na busca pelo ideal que tenho de alimentação correta. Depois de semanas de muita água, alimentação equilibrada e pouco açúcar me ataca uma vontade infinita de comer carboidratos. Poderia ser considerado normal pois o cérebro deseja repor aquilo que lhe faz falta. Mas não é normal quando se come um pão de forma inteiro com recheio de doce de leite, margarina com colheres generosas de açúcar ou leite condensado e ainda parece que estou vazia. O pães vão entrando, mas não estão enchendo, estão indo pro meu vazio existencial.

Comprar a sensação de realização pessoal também tem sido um problema. Sempre tive uma relação complicada com o dinheiro, para mim ele serve como veículo de alcance de desejos. Os desejos vem das necessidades muito bem  justificadas com as mil desculpas que tenho na manga. Preciso porque estou passando tal período, quero porque mereço, qualquer pessoa não viveria sem. Adoraria conseguir abraçar o minimalismo e a vida simples em sua essência, mas sinto muito desconforto em ver o que não tenho como uma privação também de sentimentos como conforto. A posse não é o essencial aqui, não sou muito apegada em possuir, mas em obter. Essa diferença sutil é o denominador do problema, depois de obter passa a emoção, por isso é fácil se desfazer e então voltar àquela sensação de necessidade. Não ter apego não significa não ser consumista.

Procrastinar é antever e negar.  A procrastinação é comumente associada com a obtenção de prazer imediato em detrimento ao prazer tardio da execução da tarefa. Sou uma autoenganadora de primeira, conto pequenas narrativas domésticas de que minhas mão são mais essenciais nesta ou aquela tarefa (nem sempre uma tarefa prazerosa) do que naquela a qual eu deveria estar me dedicando. Aqui não reside a relação direta entre realização e recompensa, mas o medo da realização. Sou uma procrastinadora de outro tipo. Tenho tanto medo de não atingir os objetivos da forma idealizada que quero não tentar começar. Mesmo que para isso eu precise me punir lixando um móvel ou limpando frestas de rejunte dos azulejos.


Meu caminho é cheio desses entraves que precisam ser pensados e mudados. Traduzir essas armadilhas em ações que devem ser evitadas, cortando em pequenos passos os problemas para que eu possa um a um ir me desvencilhando deles, uma ação de cada vez, um dia após o outro tem sido uma missão na qual travo pequenas batalhas.

Me assusta falar abertamente disso, admitir que sua produtividade, seu poder aquisitivo e suas medidas escondem alguns monstros nos armários pode parecer o exemplo do fracasso e isso para uma pessoa superficialmente perfeita é inacreditavelmente pesaroso. É por isso que é preciso falar e expor. Obrigada pela chance.